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Coaching - Entrevista a João Pedro Tavares criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por Paulo Mouta   
17-Jul-2010

O Coaching é uma ferramenta muito recente ao serviço das pessoas nas organizações. Não existe ainda uma perspectiva muito concreta no nosso país sobre a validade e pertinência da utilização de técnicas utilizadas no coaching quando aplicadas às equipas e mais concretamente a níveis operacionais. Questionámos o Dr. João Pedro Tavares, Professor Universitário e CEO da Skills RH, no sentido de termos uma opinião de campo e não meramente académica sobre este tema. Publicamos aqui a entrevista:

 

(Entrevista por escrito elaborada por Marlene Ribeiro)

Actualizado em ( 17-Jul-2010 )
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COACHING APLICADO À GESTÃO DE PESSOAS criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por Marlene Ribeiro   
29-Jun-2010

POR: MARLENE RIBEIRO / FÁTIMA FERREIRA 

 

 

1. INTRODUÇÃO

A gestão do conhecimento das pessoas e o seu desenvolvimento é considerado nos nossos dias como um dos factores mais importantes e de maior relevância nos âmbitos organizacional e académico. Reter as pessoas de talento nas organizações, contabilizar o activo intangível de enorme valor que o capital humano representa, lidar com clima de mudança são desafios que constituem elevada preocupação das equipas directivas que pretendem manter e aumentar as vantagens competitivas dentro das suas organizações. O mercado disponibiliza uma enorme variedade de ferramentas informáticas, técnicas e acções formativas que proporcionam o enfoque técnico da gestão do conhecimento. No entanto existe uma enorme carência competitiva que é o do desenvolvimento da pessoa no seu todo enquanto profissional e membro da sociedade. Propomos o coaching como uma das técnicas muito eficazes neste domínio e cujo enfoque é precisamente cada pessoa individualizada. O objectivo do presente trabalho é dar uma visão geral do tronco comum desta ferramenta no actual contexto organizacional e da poderosa capacidade de resposta que pode dar às organizações no desenvolvimento e valorização dos seus talentos e colaboradores que constituem as suas equipas. Basearemos a nossa pesquisa em bibliografia e também em entrevistas e artigos publicados na Internet de autores reconhecidos como gurus da gestão e desenvolvimento de pessoas e constataremos a quase inexistência de publicações de especialistas nacionais e a pouca expressividade de resultados práticos realizados e publicados no nosso país (pese embora o crescente interesse no assunto quer de abordagens sobre o tema, quer de várias empresas conceituadas de consultadoria que disponibilizam já a prestação do serviço).  Ao longo do trabalho serão evidenciadas as semelhanças e diferenças do coaching com outros métodos de desenvolvimento de pessoas tal como a mentoria, o aconselhamento, a psicoterapia, a formação convencional e o treino. Abordar-se-ão brevemente as suas origens ancestrais, algumas das influências das várias ciências ao logo da história, a sua evolução como conceito e metodologia. Falar-se-á com maior detalhe da caracterização do processo, das fases que o constituem, da relevância e do impacto no desenvolvimento das pessoas que o mesmo proporciona. Salientaremos a importância do envolvimento e motivação do cochee, dos cuidados prévios na selecção do coach adequado, da necessária empatia que obrigatoriamente deve existir entre os dois, da relação de confiança e do detalhe intrínseco ao desenrolar de todo processo, tal como da ética sem a qual este processo não é admissível e nem sequer equacionável. Visando a melhor elucidação dos leitores que eventualmente desconheçam completamente o processo, faremos um plano de actividades de uma formação de coaching direccionada para quadros das organizações com funções de liderança/chefia, cujo objectivo é a implementação global do processo nas organizações. Salvaguardado o facto de que cada pessoa com cada competência a desenvolver é um processo pessoal e diferente e que tem de ser construído à sua medida, serão ainda elaborados três documentos auxiliares que serão facilitadores no processo inicial da aplicação da arte do coach (Plano de Acção, Grelha de Auto-Avaliação para o Coach e Ficha de Análise do Desempenho do Coach).

Actualizado em ( 01-Jul-2010 )
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Relações laborais I criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por Paulo Mouta   
13-Abr-2010

Devemos ter uma perspectiva histórica se quisermos estabelecer uma análise de qualquer processo que envolva relações de trabalho. O trabalho, o seu enquadramento e a sua evolução ao longo dos tempos, bem como a forma como evoluíram as condições e os conceitos da sua prestação têm uma implicação fundamental em todos os componentes dos processos de relação laboral. Não é de todo possível dissociar estes componentes da situação presente do contexto laboral, mas acrescendo a isto, a descontextualização histórica pode ser algo influenciadora de perspectivas e de soluções mais simplistas num contexto internacional difícil e de profunda alteração social.

 

O significado e a sua tradução prática nos dias de hoje do trabalho, as relações laborais e a forma como elas se transformaram em relações puras de mercado, os contextos sociais e económicos, as realidades do tecido empresarial, têm de ser tidos em conta quando o objectivo é entendermos um aspecto aparentemente de pormenor.

Actualizado em ( 14-Abr-2010 )
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Negociação criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por Paulo Mouta   
13-Abr-2010

Negociação

 

 

 

Do fecho de um negócio à diplomacia de mais alto nível raramente a negociação é um processo entre iguais, o que é fácil de perceber se tivermos em conta que quase tudo o que fazemos em sociedade, mesmo que numa parcela muito limitada que é a nossa família ou que são os nossos amigos, envolve processos mais ou menos formais de negociação. Desde as tarefas domésticas, à negociação em concertação social ou para irmos mais longe, ao cenário de guerra em que possa existir uma via de diálogo, todas estas situações e outras de que vamos falar a título de exemplo são palcos de negociação. No limite é possível afirmar que todas as nossas interacções com outros indivíduos são processos negociais. Estes poderão ser altamente informais e quase imperceptíveis mas também poderão ser processos altamente complexos que podem comprometer o resultado esperado de algo extremamente importante para a nossa vida pessoal (as complexidades da negociação familiar), profissional (o sucesso de uma negociação pode ditar a ruína ou a salvação financeira de uma empresa) ou política (uma negociação bem conduzida pode levar a um clima de menor conturbação social conduzindo à maior facilidade da aplicação de um determinado projecto político e económico). Penso que será correcto definir negociação como um processo através do qual duas ou mais partes tentam alcançar uma decisão conjunta em matérias que sejam alvo de desacordo, mas também um processo de convencimento de validade de argumentação e contra-argumentação com vista a alcançar uma solução comum mesmo que não equilibrada. Numa perspectiva comercial negociação poderá também ser definida como um processo de sedução / resistência onde a preparação, formação e informação dos intervenientes é o factor chave.
Para que exista uma negociação no ponto de vista formal é necessário haver duas ou mais partes que representam os interesses específicos e predeterminados. Quando se parte para um processo destes têm de existir à partida no íntimo de cada um dos intervenientes três factores chave que vão adicionar-se às suas competências individuais. O nível de aspiração é o ponto de partida. Representa o resultado óptimo, aquele a que se aspira. Convém, portanto que seja realista. Por outro lado, um segundo factor é o ponto de resistência, que representa o limite a partir do qual algo se torna inegociável, ou melhor dizendo, que torna impossível qualquer processo negocial. O terceiro factor, que normalmente se apresenta como sendo o primeiro é o estabelecimento a priori da melhor alternativa a um acordo negociado, que representa a alternativa mais favorável (ou menos desfavorável) no caso de não ser alcançado um acordo. Se estes três factores devem estar presentes em cada um dos indivíduos intervenientes em processo negocial, estará em vantagem aquele que esteja melhor preparado. A preparação é muito mais vasta como se imagina, mas se alguém partir com uma definição clara destes factores e ainda por cima conseguir aferir quais os do (s) seu (s) oponente (s), ou pelo menos da mais importante que é o ponto de resistência, partirá com uma vantagem de posição negocial.
Se considerarmos uma negociação como um processo linear podemos imaginar que existe uma zona comum a todas as partes e que qualquer eventual sucesso surgirá sempre dentro dessa zona comum. Se assim não suceder não existe sequer possibilidade de chegar a um acordo pois as expectativas ultrapassam os pontos de resistência dos oponentes. Na primeira situação podemos afirmar que existe uma amplitude de negociação positiva enquanto na segunda esta é negativa.
 
Procurando exemplos na vida real, poderíamos atribuir ao conflito que desde há décadas opõe israelitas e palestinianos uma amplitude de negociação negativa. Na prática isto quer dizer que aquilo que é pretendido por uma parte é incompatível com as aspirações da outra. Depois de uma ocupação militar e de sucessivas restrições e limitações físicas, bem como uma substancial redução de território e corte de vias de comunicação entre as distintas zonas palestinianas torna-se impossível a existência de um estado. Por um lado Israel impede a existência de um estado independente no país que eles ocuparam, e por outro lado a Palestina é uma impossibilidade pois foi descontinuada territorialmente, para além da sua Autoridade ter sido mutilada em vários aspectos. Ou seja, do lado israelita apenas se conseguirá atingir o resultado com a eliminação física total dos territórios palestinianos, ou em alternativa com um êxodo massivo e consequente esvaziamento daquele espaço, por outro lado apenas pode existir a Palestina enquanto estado independente se grande parte dos territórios ocupados for entregue e recuperarem a sua continuidade territorial. Isto torna a amplitude de negociação negativa, o mesmo é dizer que impossibilita a negociação. As concessões que podem ser feitas, em hipótese não chegam perto de uma solução mínima aceitável para cada uma das partes.
 
A ideia inicial que nos indica que raramente as partes estão em posição de igualdade negocial advém de muitos factores e traduz-se no seu posicionamento ou nas suas escolhas estratégicas1 que estão “catalogadas” em quatro grandes famílias de opções (quando percepcionadas, uma vez que podem não ser exactamente opções mas limitações das condições pessoais ou colectivas do(s) negociador(es)). Estas famílias resultam do cruzamento entre o grau de importância atribuído ao alcance dos resultados com o grau de importância que é atribuído à relação com a contraparte. Aqueles que se encontram ou que se percepcionam numa posição de inferioridade adoptam uma postura de “evitamento” no limite, ou de “acomodação” que representa uma certa subordinação aos objectivos da contraparte. Por outro lado, a posição mais neutra e que representa o melhor possível os interesses dos ambos os interlocutores adoptando uma postura de bastante abertura, confiança, exploração conjunta de alternativas e partilha honesta de informação é a da “colaboração”. Por último surge a postura de “competição” que se traduz numa focalização no curto prazo e de uma defensividade e salvaguarda de informação, em jogadas mais ou menos claras. Por estranho que possa parecer são os mais poderosos ou que se percepcionam enquanto tal que adoptam mais frequentemente esta postura.
Um exemplo prático e interessante que se pode analisar é o da questão do desarmamento nuclear. Tendo estado o mundo à beira de uma terceira guerra mundial e estando já o planeta coberto por uma quantidade irracional de armas nucleares e sempre em escalada chegou a altura em que Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchov pretenderam aprofundar os esquemas de supervisão criados com a fundação da AIEA – Agência Internacional da Energia Atómica em 1957 com vista à (suposta intenção de) não proliferação deste tipo de armamento. Não é de somenos relembrar que o armamento existente à altura (tal como à data de hoje) daria para destruir o planeta em cerca de 100 vezes. Sabemos pela análise histórica que as partes em negociação foram elementos da maior relevância e deixaram marcas no presente e no futuro difíceis de interpretar ou medir. Com personalidades diferentes, as circunstâncias ditaram que as opções estratégicas de cada um fossem em tudo semelhantes num contexto de “competição” ou negociação distributiva. No entanto, e devido ao facto de uma das partes se encontrar bastante enfraquecida e dado que se tornava demasiado óbvio para um dos intervenientes que o outro comandava um país que chegara à negociação alavancado por propaganda de um e de outro lados mas sem substância. O que sucedeu ao processo negocial? Aparentemente revestido de êxito só com a queda do bloco de Leste se compreendeu que esse processo competitivo não havia surtido qualquer resultado prático uma vez que se encontrava inquinado à partida pela diferença de posições negociais de ambas as partes e pelo facto de ambos utilizarem estratégias idênticas. Como é sabido existiu até certo ponto um compromisso aparente de verificação permanente e redução deste tipo de armamento que nunca veio a suceder de facto porque se anteviu ainda durante o processo que um dos lados iria entrar em colapso.
Talvez o exemplo geopolítico pareça algo exagerado mas demonstra-nos o quanto uma negociação pode aparentar algo e ser outra coisa bem diferente. Demonstra também que estratégias idênticas não representam necessariamente forças negociais idênticas. E sobretudo, para outros tipos de negociação podemos depreender que aquele que melhor conhecer o posicionamento, a atitude e a circunstância em que o(s) opositor(es) se encontra(m) tem à partida vantagem não só teórica como prática. O que equivale a dizer que o seu grau de preparação é directamente proporcional ao seu potencial de sucesso negocial.
A questão interessante que aqui podemos colocar é precisamente sobre o motivo que leva a que, para além de toda a nossa vida se pautar por processos negociais mais ou menos formais, temos constantemente de observar passivamente falsas negociações e muitas vezes sermos sujeitos nelas. Sobreviveria a humanidade de outra forma? Todos sabemos que muitas das coisas que nos rodeiam são inegociáveis, como por exemplo a nossa dignidade, até ao momento em que por “valores mais altos” tenhamos que a empenhar em falsos processos negociais. Como verificámos pelos exemplos muitas vezes a negociação é apenas um palco para representação de poderes artificiais. Não é por acaso que se estão a reduzir para o plano das negociações individuais as relações laborais que eram pautadas por contratos colectivos. Ninguém acredita que existem processos reais de negociação entre uma entidade patronal e um único funcionário pois eles encontram-se em níveis radicalmente diferentes. O que aparentemente é negociado é de facto imposto.

 

A preparação como factor primordial da negociação


 

Em todos os contextos, desde a diplomacia à simples relação comercial o negociador tem de ser objecto de uma preparação específica. E é específica porque cada situação exige uma diferente abordagem. Mesmo que se trate de um negócio repetido mil vezes, por exemplo, cada interlocutor é diferente do anterior. Daí advém que tenham de ser aplicadas abordagens e estratégias comerciais diferenciadas tendo em conta quem vai ser o interlocutor. Devem sempre ser conhecidas, tanto quanto possível, características chave do interlocutor como os seus interesses, as suas prioridades, as suas alternativas, o seu ponto de resistência ou o seu padrão comportamental típico.

A falha na preparação pode significar logo à partida uma falta na clareza dos objectivos e isso pode ter como consequência a dificuldade em responder e avaliar as propostas e contrapropostas do oponente. Pode também traduzir-se numa perda de flexibilidade negocial. A não preparação pode representar a não focalização no resultado pelo que é comum não existir potencial de aceitação de resultados satisfatórios por não serem percepcionados enquanto tal. Não estar preparado pode ter como resultado a colocação de propostas irrealistas e a não consciencialização de forças e fraquezas e a consequente perda de credibilidade e/ou persuasão. Pior ainda, poderá aceitar propostas desfavoráveis sem consciência disso por não conhecer a melhor alternativa para o acordo negociado ou o ponto de resistência. Pode também ser alvo fácil de uma contraparte mais agressiva ou desonesta.

 

Em suma, a preparação deve ser constituída por alguns aspectos que, no seu conjunto, potenciam a posição negocial que qualquer interveniente em qualquer situação negocial. Esses aspectos são: o conhecimento da natureza do conflito, o auto-conhecimento, o conhecimento do oponente, o desenvolvimento de argumentação, o profundo conhecimento das convenções (importante quando são processos entre pessoas de diferentes contextos culturais, ter em consideração os aspectos práticos administrativos, reflexão sobre propostas e iniciais e capacidade para traçar um padrão de concessões e por último a capacidade de simular.

 

O processo e os erros do processo

 

 
 

Sabemos que a preparação é o factor chave para partir em posição de vantagem numa negociação real. Podemos daí depreender que a nossa transparência é inimiga do nosso objectivo negocial e que a nossa investigação do ambiente e dos interlocutores são os canais que nos devem conduzir num processo que se pretende bem sucedido. Por ambiente entendemos não só as condições emocionais e estados de espírito das partes mas também, e de forma muito relevante, o ambiente físico. O espaço deve ser o mais próximo possível do conforto próprio físico e psicológico. O espaço pode representar mais na preparação que qualquer outro factor se um processo negocial ocorrer nos domínios, no “habitat natural” do negociador. Existem várias estratégias ou tácticas que podem ser utilizadas em conjugação com o nível de conhecimento e de preparação mas também existem algumas mistificações quanto a regras a utilizar em processos negociais que os tornam cristalizados e artificiais. Um elemento chave no processo é identificar quando as normas estabelecidas por alguns iluminados que não estão no terreno devem ser atiradas para o lixo e deve ser a percepção e a sensibilidade do negociador a conduzir o processo. Um exemplo claro de mistificação é o da negociação comercial num processo de uma venda. Ao contrário do que dizem as convenções da boa postura comercial por vezes é o “não” que nos garante que um potencial negócio se transforme num fecho concreto. Imaginemos que um cliente numa superfície comercial decide adquirir um determinado artigo do qual apenas existe uma única unidade exposta. O cliente aparentemente não apresenta reserva na negociação, no entanto questiona o seu interlocutor sobre se este faria tal aquisição. Uma análise breve mas cirúrgica às características pessoais do cliente e à forma como a questão foi colocada pode ser o sinal indicador de que o “não” pode significar pura e simplesmente um negócio (que até ali o era apenas em potência) fechado. O “não” aqui significa uma quebra grave de regras básicas de negociação em vendas mas uma evidente injecção de confiança no cliente que comprará qualquer artigo dentro da sua linha de expectativas e do seu potencial de compra que lhe seja aconselhado por aquele negociador/vendedor específico. É obtida uma situação designada por ganho-ganho (win-win) onde a confiança gerou um fecho de negócio muitas vezes à primeira frase em que as duas partes saem claramente beneficiadas. Ter em atenção que o “não” pode não ser sincero, apenas meramente estratégico, mas é certo que o melhor vendedor / negociador é aquele que consegue os melhores resultados com a verdade e sinceridade. Na situação exemplificada o vendedor vende o que necessita vender e o comprador faz a melhor compra porque se sente seguro. Sai vitorioso. Pode dizer-se que a negociação é sempre um processo linear mas que não devem ser aplicadas as mesmas regras para todas as situações. O mesmo é dizer que não deve existir um processo rígido mas antes um conjunto de preceitos que a serem seguidos atribuem vantagem negocial à partida. A preparação não é um menu ou um guião a partir do qual se possa estruturar um conjunto de acções padrão. Cada caso é um caso. Estar preparado é compreender o que varia efectivamente e como actuar de acordo com essa alteração de variáveis. Se assim é, porque razão insistem as organizações em estabelecer normas pré-formatadas para processos de negociação comercial? A explicação é simples. Por norma os negociadores são agentes e não “donos” do negócio. As organizações não depositam qualquer confiança aos indivíduos para negociar em seu nome sem que o processo esteja absorvido até à exaustão por esse indivíduo. Ao contrário da negociação diplomática em que existe mais que confiança, uma representação plena do negociador na figura do diplomata, na negociação comercial nenhuma organização se revê na criatividade e sensibilidade do indivíduo. Não é por acaso que os processos negociais em organizações comerciais são comummente auditados e monitorizados. E isto não sucede com o intuito de haver preparação mais cuidada e de se perceber o nível de desempenho real de um negociador, mas sim para medir o desempenho formal que, muitas vezes representa seguir regras que não conduzem à melhor solução mas antes à solução possível dentro do guião limitativo imposto pela entidade superior na organização. Escusado será dizer que esse condicionamento da audição punitiva é um factor que pesa demasiado sobre o desempenho real de um negociador que corre constantemente o risco de conseguir bons negócios ou bons acordos precisamente contornando as limitações impostas sendo punido por esse facto.

Continuando na linha de uma das muitas possíveis explicações para um processo de negociação temos que a exposição deve ser clara e a partilha (no sentido de informação) de posições e de interesses deve ser tão clara quanto possível para que se possam compreender os pontos de partida que são inerentes a qualquer posição inicial de um processo negocial. É nesta fase que serão identificados os possíveis pontos em comum, a referida zona comum onde se podem cruzar ou não os limites de resistência.

A questão central no processo de negociação é a procura do comportamento mais eficaz. Por vezes uma preparação minuciosa não é suficiente e já dentro do processo negocial é necessário aplicar fórmulas diferentes, ou mesmo escapar a todas as fórmulas deixando à intuição o papel de condução do próprio processo. Certo é que a auto-confiança é fundamental pois só esta pode orientar a intuição no sentido de se tornar eficaz evitando comportamentos defensivos ou reveladores da nossa própria posição. O improviso é uma excelente fórmula quando se sabe camuflar ou não fazer transparecer. Claro está que a capacidade de improvisar não é comum a todos e muito poucos têm competências comunicacionais que lhes permitam camuflar um improviso disfarçando-o de preparação. Em ambas as situações é necessário saber escutar, usando informalmente e honestamente um processo de escuta activa. O pior que pode suceder no que diz respeito à escuta num processo negocial é precisamente o que fazem muitos negociadores em contexto comercial, colocar a resposta em “piloto automático”. Noutras situações isso não só não resultará como pode inquinar de forma definitiva o processo.

A linguagem é de extrema importância. Também ela pode ser alvo de intensa preparação, no entanto a sua eficácia varia na proporção directa da capacidade linguística do negociador. E isto aplica-se tanto à linguagem verbal como à não verbal.

Todos estes factores em conjunto permitem estabelecer uma imagem credível e verdadeira e consequentemente facilitadora de um processo negocial.

Por outro lado, os erros podem facilmente ser visíveis e deverão ser evitados. Existem alguns mais comuns nas negociações reais. A adopção de estereótipos é frequentemente utilizada consciente ou inconscientemente. Há uma tendência para julgamentos com base em factores externos do indivíduo que nos levam a pensar que este se enquadra num determinado grupo ou escalão quando isso poderá, de facto, não suceder. Apesar de um esforço constante desenvolvido, a grande maioria das nossas situações de vida (e não apenas em situações de negociação formal ou informal) têm presentes julgamentos a priori dos indivíduos que nos rodeiam. A atribuição ou focalização num atributo particular é uma forma de catalogar mentalmente determinado indivíduo. Outro erro frequente é o da percepção selectiva, a tendência que o indivíduo tem para tomar mais em consideração a informação que suporta ou aparenta suportar as suas posições em detrimento da que as possa contrariar e também o efeito de semelhança quando se tende a considerar mais favoravelmente as pessoas com as quais se identificam algumas semelhanças. Também é comum o facto de haver uma tendência de atribuição dos comportamentos dos outros a causas meramente internas como os seus traços de personalidade. Em todas as circunstâncias da vida podemos ser iludidos pelas primeiras impressões que nos podem empurrar para o julgamento do indivíduo (já não a priori mas na situação inicial de interacção. Um dos erros mais graves é o da projecção. A atribuição aos outros indivíduos de características, sentimentos e formas de percepção de uma circunstância que nos pertence assumindo que a reacção será de todos semelhante à nossa. Não será muito comum mas pode notar-se mais em personalidades com traços mais narcisistas.

 


As falácias da negociação


 

Todos temos presentes situações, tais como algumas que já foram abordadas, em que não existe de todo um processo negocial. No entanto apresenta-se enquanto tal perante terceiros. Figuras terceiras poderão ter o seu papel quer como intervenientes quer como meros espectadores e destinatários dos resultados negociais. Qual é então o papel de terceiros nos processos negociais? Como vimos no exemplo israelo-palestiniano não existe na prática uma possibilidade negocial. Contudo, já se desenvolveram vários processos ao longo das décadas com vista a mostrar algum resultado. Neste processo aparece sempre uma terceira parte estranhamente identificada e aliada de um dos lados do conflito. A diferença de forças em cima da mesa não impede a necessidade de uma justificação perante tudo quanto ali se tem passado e a opinião pública habilmente manipulada irá entender como “esforços” e negociação pelas partes e pelos terceiros intervenientes. No entanto esse esforço é uma mera simulação.

Se pensarmos num exemplo mais próximo da nossa realidade virão certamente à memória as tácticas que começaram a ser utilizadas por empresas de time-sharing mas que depressa se espalharam a outras áreas de negócio como a venda de colchões ou electrodomésticos milagrosos. A concepção da ilusão é precisamente a mesma. Ao nosso lado há um negócio simulado a decorrer que a determinado ponto irá ser concluído e que nos irá fazer acreditar que efectivamente aquele é um bom negócio e que estaremos de fora se nele não acreditarmos e investirmos. Ironicamente a simulação de negócio produz os mesmos efeitos no sujeito que está a observar que a simulação de processo de paz produz na opinião pública que acredita verdadeiramente que esforços estão a ser desenvolvidos e que resultados estão a ser procurados. Temos que a simulação não percepcionada de uma negociação é um factor potenciador para o nosso auto-convencimento nos nossos próprios processos negociais.

Todos os anos ouvimos falar em acordos de concertação social. No entanto eles não existem de facto e trata-se de meras simulações negociais que depois se irão traduzir em processos localizados com maior probabilidade de sucesso na justa medida em que se tratam de processos entre entidades com forças negociais diferenciadas. Essa é a outra falácia da negociação. Não se negoceia com quem tem menos poder negocial, impõe-se. Não se negoceia com quem tem mais poder negocial, sugere-se. Mesmo que pareça assim não ser por existir um ambiente negocial, a realidade é esta. Por esta razão os acordos negociais são francamente mais frequentes onde exista uma grande diferença de poder entre as partes negociais. Por trás da negociação está sempre uma imposição.

 

Em conclusão

 

 
  O processo negocial pode considerar-se verdadeiro ou simulado. Numa e noutras circunstâncias, os resultados produzidos para terceiros são muito semelhantes. A ideia de uma possibilidade de obtenção de pontos comuns entre partes divergentes encoraja outros processos negociais paralelos. A negociação +e um processo linear onde os interesses das partes podem não ter pontos comuns e não têm necessariamente de existir alternativas negociais válidas. Podemos dizer que uma negociação tem tanto mais sucesso quanto maior for o benefício para todas as partes. Tem mais sucesso do ponto de vista do negociador quando se consegue alcançar um melhor resultado sem concessões ou com reduzido número de concessões. A negociação é fundamentalmente um processo linguístico onde linguagem verbal e não verbal, desempenham um papel determinante no sucesso de um indivíduo colocado na posição de negociador. A preparação deve ser a sua primeira preocupação com vista a obter os melhores resultados conhecendo melhor o seu oponente e as circunstâncias que o rodeiam, as suas fraquezas e os seus pontos fortes. Raramente os negociadores se encontram em posição de verdadeira igualdade existindo sempre um elo mais forte capaz de colocar em causa o próprio processo negocial. O que faz com que isto não suceda é o facto de em todas as situações onde são produzidos resultados, estes aparecem sempre como acordados mesmo quando são impostos. Dessa forma a negociação potencia a negociação. As negociações mais específicas como as de carácter comercial não devem reger-se por guiões nem regras pré-estabelecidas mas sim por uma forte preparação e pela apresentação de negociadores com características próprias indutoras de confiança. Para induzir confiança é necessário que exista uma forte estrutura de auto-confiança mas que apenas transpareça a dose que baste para que seja compreendida a competência negocial e a sua postura que se deseja ver percepcionada. As falácias da negociação são precisamente a simulação e a diferença de posição dos negociadores. A simulação porque apresenta algo que não existe mas que é percepcionado de forma a potenciar outros processos negociais. Diferença de posição na medida em que a correlação de poderes, salvo excepções raras em negociação comercial, nunca é de igual para igual. O processo negocial é utilizado como processo meramente comunicacional.

 

 

 

Actualizado em ( 13-Abr-2010 )
 
Individualismo e motivação criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por Paulo Mouta   
12-Abr-2010

Individualidade ou individualismo


Independentemente da interpretação que possamos fazer em relação aos factores sociais que nos influenciam, nomeadamente a forma como a sociedade se organiza, e como (dentro desta) as organizações optam por se estruturar, o indivíduo é a peça central para o seu funcionamento. O indivíduo motivado e enquadrado com as suas qualidades e defeitos integrados nos locais onde maximizem a sua produtividade representa uma mais-valia para si mesmo e para a organização a que pertence. E todos os indivíduos pertencem formal ou informalmente a organizações. Em última análise o Estado é a organização última que pode optar por saber integrar ou excluir indivíduos, sendo que a organização (ou organismo) base, estruturante da formação ou de formatação do indivíduo será a família no seu sentido mais amplo (uma vez que o conceito tem sofrido grandes mutações e tende a sofrer ainda mais no futuro).
Uma das condições fulcrais para a realização do indivíduo é precisamente a questão da igualdade. Esta é uma questão que não se fica pelo significado político, filosófico, e principalmente do ponto de vista do Direito, de ausência de distinções entre elementos de uma sociedade. E este conceito de igualdade que pode ser vista nas suas vertentes formal e material é precisamente o motor da sua própria contradição e complemento. Ou seja, se alguém é igual perante os outros tem os mesmo mecanismos e, portanto, as mesmas oportunidades que os outros indivíduos no reconhecimento e no desenvolvimento de características diferenciadoras positivas.
Poder-se-ia dizer que maximizar qualitativamente e quantitativamente o funcionamento da organização implica a “arrumação” dos indivíduos de acordo com as suas especificidades, vocações ou talentos, e que estes apenas se revelam na sua plenitude se ao indivíduo for permitido existir enquanto tal em condições de igualdade com outros indivíduos.
As sociedades e as organizações tendem a caminhar para a ideia contrária que significa dar ao indivíduo as armas para competir e restringir todas as condições para cooperar. Isto significa na prática que se considera cada indivíduo uma peça isolada em relação à qual não é tido em conta o factor integrador mas apenas o factor diferenciador negativo. Os indivíduos não são distinguidos pelas diferenças positivas e construtivas mas pela capacidade que têm de subsistir em ambientes hostis e onde a organização, procurando retirar o máximo proveito, acaba por indiferenciar as principais características e elevar apenas os comportamentos que respeitem uma espécie de darwinismo social aplicado.
Podemos então inferir desta ideia que tanto o igualitarismo como o individualismo são formas de dificultar ou mesmo impossibilitar a diferenciação positiva dos indivíduos nas organizações. O igualitarismo é uma forma de tornar artificialmente igual aquilo que é diferente. Não se trata meramente de uma igualdade formal mas de uma forma de enquadrar numa matriz social predefinida os indivíduos de forma a eliminar justamente os factores que os diferenciam. Esta fórmula foi a espinha dorsal de algumas interpretações ideológicas e filosóficas nomeadamente a seguir à segunda grande guerra. Nesse importante período geraram-se os dois maiores falhanços históricos precisamente pelo conceito do papel do indivíduo na sociedade e nas organizações. Um muro dividia literalmente as duas visões que se traduziam em duas fórmulas antagónicas de anulação do aproveitamento maximizado das características individuais. Do outro lado do muro onde se pensava estar em construção a superação política e económica ao sistema capitalista através da concepção do socialismo científico ignorava-se a parte mais importante da intervenção do principal ideólogo dessa concepção política. O célebre conceito de “De cada um segundo suas capacidades (também traduzido muitas vezes com a palavra habilidades1) e a cada um segundo suas necessidades"2 presente no pensamento de Karl Marx. As interpretações que foram aplicadas nomeadamente na sociedade soviética e seus países satélites no leste europeu (com excepção da Jugoslávia e Checoslováquia de Alexander Dubček antes da invasão soviética em 1968) foram bem diferentes. Foi pretendida a anulação do indivíduo e da individualidade, ou seja das características que definem cada indivíduo através da sua dissolução formal numa sociedade (e dentro desta nas diversas organizações) para que o colectivo sempre prevalecesse sobre o indivíduo. Esta prática entra em contradição objectiva com a ideia original e importante de que apesar da igualdade dos indivíduos, é a diferenciação positiva dos seus talentos, das suas habilidades ou das suas possibilidades que potencia e maximiza a participação individual no todo colectivo. Significa que quanto mais enquadrado estiver o indivíduo com aqueles que são os seus verdadeiros interesses, vocações e talentos mais a própria sociedade, e dentro desta as organizações, têm a ganhar. A soma é assim superior ao valor relativo de cada uma dessas partes. O facto de se ter insistido na fórmula igualitarista durante décadas levou à derrocada económica. Mesmo produzindo altíssimos níveis de educação esta era conduzida na íntegra pelo estado que dirigia os indivíduos para onde seria suposto eles mais poderem contribuir para a sociedade no seu todo. Mas não se limitaram ao aspecto formal, aplicaram quase na íntegra a fórmula igualitarista no aspecto material. Pelo que era absolutamente normal, um físico nuclear ter um nível de rendimentos quase similar ao de um camponês, um professor universitário ao de um operário fabril. E este aspecto foi, ao longo de décadas o causador da lenta desmotivação geral da sociedade e da desvinculação desta forma de construção social antagónica aos seus próprios princípios fundadores.
Do lado de cá do muro, na Europa ocidental o caminho era outro. Um caminho que se foi radicalizando do medo inicial do que estava do lado de lá do muro para uma construção fantasiosa do individualismo. O norte da Europa não temeu etiquetas e tomou medidas que revelaram uma visão mais humanista e mais progressista. Implementaram medidas de Bem-estar social (Welfare State), no período pós II Guerra Mundial por governos social-democratas, pressionados pelos movimentos sindicais de trabalhadores. Apesar de terem existido grandes mudanças ao longo das décadas os países do norte europeu continuam algo à margem pois adoptaram um sistema social e político híbrido que lhes faculta elevados níveis de protecção social mesmo nos nossos conturbados dias.
Num dos pólos centrais do mundo ocidental, e no auge da visão neoliberalista, Margareth Tatcher afirma que “A sociedade não existe” determinando assim o individualismo como motor do desenvolvimento social, económico e político. O individualismo foi, desde muito antes, mas principalmente a partir daí, visto como a base de sustentação das sociedades ocidentais. Parece que o indivíduo tende a tomar o seu lugar não na sociedade (porque esta é negada) mas perante si mesmo e perante os outros. E o seu lugar é aquele onde apenas está enquanto outro não estiver. Anulando a sociedade anula-se assim o indivíduo como ser social e cria-se a competição por tudo o que nos rodeia.
Na altura discutia-se muito o papel da educação pública que parecia obsoleto e descontextualizado. Mas se o individualismo nega a sociedade, acaba por negar o principal na
afirmação identitária dos indivíduos: a igualdade, no sentido em que já foi abordada. E se os indivíduos são criados não para serem diferentes entre si mas para terem diferentes níveis de oportunidade e para, por ela competirem entre si, isso acaba por se tornar num factor gerador de manifestações de características individuais negativas. O indivíduo pode ser incluído com a mesma facilidade com que pode ser excluído. Está dependente por inteiro dos factores sociais que o rodeiam, da sua origem, do seu comportamento, do seu poder de anular ou subjugar o outro indivíduo. A economia e o mercado cuidam de criar os modelos ou os formatos educativos para os indivíduos à medida do que é mais rentável. Os indivíduos distribuem-se não por talentos mas por possibilidades dadas ou criadas por resultados esperados num sistema de hierarquização social de diferenciação classista de oportunidades.
Podemos assim dizer que a forma como a sociedade se organiza, e partindo desde já do pressuposto parcial de que a sociedade é um dado adquirido e de que o indivíduo é por natureza um ser social, contribui em muito para a forma como o indivíduo participa. O seu contributo, aquilo que transmite ou constrói é diferente consoante a forma como se enquadra nas organizações ou simplesmente na sociedade como um todo. A maximização do aproveitamento dos talentos, as capacidades e as aptidões de um indivíduo apenas se consegue quando à igualdade se acrescenta a individualidade em contraponto com os conceitos de igualitarismo e individualismo.
 
 

As aptidões, os talentos e as motivações



Quando falamos de aptidões de um indivíduo estamos inevitavelmente a referir condições inatas ou adquiridas, objectivas e mensuráveis. Podemos falar que, por exemplo um indivíduo pode estar mais ou menos dotado de determinadas características sensoriais (acuidade visual, sensibilidade auditiva, precisão visual, etc.) motoras (agilidade diversa, precisão motora, coordenação manual, etc.) ou de inteligência e linguagem (a memória, capacidade de observação, capacidade de compreensão, espírito crítico e inovador, boa dicção, capacidade de improviso, etc.). 3 Embora de uma forma que hoje se pode considerar totalmente ultrapassada foram introduzidas no estudo do comportamento humano ferramentas que permitiam quantificar, e consequentemente catalogar ou etiquetar as capacidades dos indivíduos. Essa procura de diferenciação e de hierarquização vêm precisamente em consequência da aplicação dos derivados sociais das teorias de selecção natural darwiniana. Galton (um familiar de Darwin) e Cattel introduzem os primeiros testes para medição e catalogação de capacidades intelectuais aplicados em ambiente de laboratório em 1890. Posteriormente foi adoptada uma visão mais prática por ser mais adaptável a situações reais tendo sido criadas por Alfred Binet as escalas métricas de inteligência e de idade mental adoptadas pelas autoridades francesas à época. Estas e outras formas de medição são utilizadas em ambiente organizacional para comparação, classificação, predição e selecção de indivíduos pelas suas capacidades específicas e aptidões. No presente a importância dos testes é altamente controversa havendo quem lhes atribui ainda um papel fundamental na catalogação e selecção de indivíduos, contudo a grande maioria dos cientistas sociais actuais optam por integrar os testes num muito mais amplo leque de instrumentos. E a razão pela qual isso sucede é precisamente porque a diferenciação negativa causada pelo determinismo dos resultados dos testes é evidentemente limitadora. Os instrumentos devem ser assim ser considerados tão dinâmicos quanto os indivíduos a que se destinam.
O indivíduo é ele mesmo e a sua circunstância4 a cada momento. É importante termos em consideração que determinado indivíduo pode ter fortes aptidões para determinado tipo de prática mas apresentar em determinado momento uma fraca demonstração dessa aptidão. A circunstância pode não ser a adequada. O momento pode não ser o melhor. Um indivíduo pode ficar irremediavelmente engavetado numa categoria que em nada corresponde à sua verdadeira capacidade. Daí a necessidade de uma análise mais profunda. As organizações optam por métodos diferentes de selecção de indivíduos mas quanto mais amplo for o leque de ferramentas utilizado mais significante e adequado será o resultado.
Na grande maioria das organizações não existem estruturas criadas para perceberem o que move os indivíduos, quais os seus valores e quais as suas motivações. Muito menos uma estrutura autónoma que esteja para além do mero interesse primário de quem dirige a organização. Se nos centrarmos mais nas organizações empresariais então essa lacuna é ainda mais evidente. Os empregados são o espelho das chefias, que por sua vez são o espelho das administrações. Os indivíduos são distribuídos por onde aparentemente poderão ser mais produtivos de acordo com características básicas. São-lhes atribuídas funções que a todo o momento podem ser alteradas por ordens superiores, supra-superiores ou por legislação laboral incoerente. Discute-se se antiguidade é um posto ou se será um desgosto, se será desmotivadora e consequência de quebra de produtividade. Mais à frente veremos que não tem de ser necessária e automaticamente nenhum dos dois. Obviamente que, poderá ser altamente prejudicial a uma organização escolher mal os indivíduos que nela trabalham, mas muito mais prejudicial será se escolherem os indivíduos certos para os postos errados. É como ter uma equipe desportiva repleta de talentos mas aos quais foram atribuídas posições diferentes daquelas que estão de acordo com as suas aptidões inatas ou adquiridas. Para além das aptidões ou talentos há quem defenda que se devem conhecer quais os valores que movem um indivíduo. A palavra valores deve ser aqui entendida a nível organizacional uma vez que os valores individuais, não devem sequer dizer respeito a qualquer organização. Ou seja, os valores do indivíduo no contexto de uma organização não devem ser contrários aos valores dessa organização e devem ser o mais possível próximos ou coincidentes. Por exemplo uma organização que não valorize o factor “justiça” pode representar um campo de tortura para um indivíduo que concebe a sua existência enquanto seu membro pelo valor “justiça”. A cada acto de injustiça contra si ou outros o indivíduo ver-se-á cada vez mais afastado e desmotivado, logo reduzindo a sua participação e o seu valor acrescentado (a sua capacidade ou aptidão). Claro que o exemplo é por si algo infeliz porque o valor justiça é contrário ao conceito de organização empresarial tal como a conhecemos nos nossos dias o que deriva directamente do formato de organização das próprias estruturas organizacionais a começar e terminar no próprio estado.
Se, como vimos, o indivíduo é ele e a sua circunstância, a motivação de um indivíduo será o resultado da interacção entre o indivíduo e a situação em que se encontra. Se o indivíduo estiver perfeitamente enquadrado nos valores de uma organização (e partindo do princípio que está a desempenhar as funções onde maximiza as suas aptidões) e conseguir olhar mais fundo no desenvolvimento organizacional e no que isto pode provocar à sua satisfação pessoal, poder-se-á dizer que ele irá maximizar o seu esforço e potencialmente irá aplicar o máximo das suas aptidões na situação concreta. Ou seja, vai aplicar um esforço mas também vai retirar prazer desse facto uma vez que este representa a satisfação de uma necessidade individual que se prende com o objectivo inicial e que está sempre presente na situação. O objectivo poderá ou não coincidir com o da organização, mas se isso suceder e se ele se concretizar na situação concreta podemos afirmar que o indivíduo está correctamente aproveitado pois pertence, integra-se e desenvolve-se na sua individualidade e funde-se com a estrutura acrescentando-lhe mais-valia e retirando a sua própria mais-valia sob a dupla forma de satisfação pessoal e de rendimento.
Segundo alguns dados conhecidos Portugal é um dos países com menor índice de produtividade por trabalhador. Muito embora se possa questionar se não será dos países onde existem mais fracas condições para medir, precisamente, o índice de produtividade. Para podermos contextualizar, por estes dias tem havido um debate intenso sobre a produção leiteira e sobre o facto de os produtores nacionais terem um rendimento menor face aos seus colegas europeus e ainda por cima verem o preço ao produtor descer ainda mais. A resposta do ministério que tutela o sector foi simples: A lei do mercado. Há menos consumo, logo os preços ao consumidor descem. Aparentemente tudo indica que estamos aqui perante uma questão da esfera da economia apenas. Mas se olharmos mais aprofundadamente veremos que a montante das decisões económicas encontram-se factores que explicam a razão pela qual os produtores portugueses, tendo preços mais elevados pagos por litro de leite, acabam por ter menor rendimento. Os factores económicos são fáceis de identificar. O custo da produção, o tipo de exploração (normalmente familiar ou de pequenas dimensões) e o facto da indústria da distribuição leiteira se concentrar num monopólio, explicam que a margem de lucro do produtor nacional seja muito inferior. Este exemplo pode remeter-nos assim para a questão abordada atrás. Mas pelo ponto de vista não económico e que é o que nos interessa aqui, em igualdade de circunstâncias não haveria qualquer impedimento a que o produtor português tivesse a mesma produtividade que os outros europeus. Com os mesmos custo de produção e a mesma margem de comercialização e consequentemente com os mesmos apoios concedidos por organismos diversos, ou seja literalmente em circunstâncias iguais, o produtor nacional tenderia a maximizar o seu esforço uma vez que não se veria desmotivado ou não motivado pelo facto do seu trabalho não render tanto como o dos seus colegas europeus, ou no caso em concreto, nas menores explorações nem renderem de todo. Estamos a falar de explorações privadas, ou seja, onde a iniciativa e o capital partem dos indivíduos e, consequentemente, não deveriam existir factores desmotivadores. Eles são os donos do próprio negócio, das vacas que lhes proporcionam os litros de leite supostamente necessário à sua sustentação. No entanto, nos últimos dois anos mais de 55% dos produtores já desistiram da actividade. Daqui se conclui que a desmotivação ou não motivação não são factores que inquinam as organizações e o indivíduos dentro das organizações. Quando isto sucede à estrutura base que suporta toda uma estrutura política, social e económica onde a maioria das pessoas escolheu livremente viver, é sinónimo de que a própria sociedade (e já começam a desaparecer aqueles que diziam não existir a sociedade) está deslocada e desmotivada e que ainda não foi possível encontrar um catalisador que altere drasticamente esta situação.
Numa organização, e mais especificamente numa organização empresarial, é mais fácil encontrarmos factores desmotivadores ou não motivadores. Em primeiro lugar existe uma hierarquia. A permeabilidade e a acessibilidade dos superiores hierárquicos são manifestamente questões chave nas organizações. Se partirmos do princípio que uma organização é em primeiro plano responsabilidade de quem gere cada um dos seus factores e principalmente o factor humano, em última análise cabe a quem gere as pessoas, seus interesses e motivações na organização (vulgarmente conhecidos como gestores de recursos humanos) a maximização da produtividade pelo correcto recrutamento e pela correcta distribuição das pessoas por onde os factores aptidão e motivação conjugados correspondam a um maior desempenho individual. Nas organizações, como em outros aspectos da vida, o desempenho global e o valor por ele criado pode superar em muito a mera soma do desempenho de todas as partes.
Os indivíduos não são estáticos. A vida altera de uma forma demasiado rápida e os factores que nos influenciam e que contribuem para a equação do desempenho = aptidão x motivação podem ser determinantes para que sucedam situações de redução de desempenho ou até mesmo de não correspondência com expectativas criadas. A organização pode ter feito um trabalho excelente no recrutamento e ainda melhor na distribuição dos indivíduos por aptidões. Isso por si mesmo é um factor que integra e que motiva o indivíduo. Contudo, a organização pode em todos os seus outros aspectos não corresponder à ideia que foi colocada a cada um dos indivíduos. É muito frequente no nosso país o recrutamento ser utilizado para um alavancamento ficcionado das respectivas organizações. São vendidas as melhores ideias aos melhores profissionais. Mas não passam de ideias pois as organizações que são apresentadas aos candidatos não passam de meras ficções. Os aspectos que mais são ficcionados pelas organizações e que mais afectam a motivação dos indivíduos são principalmente a hierarquização e as formas de realização e de organização de tarefas, onde muitas das vezes se encenam potenciais níveis de confiança que na realidade não existem, o estilo de chefia que é sempre apresentado de uma forma e realizado de forma geralmente diferente ou ainda o modo como é estabelecido recompensar o desempenho. É prática corrente a manipulação ou ocultação de dados para incumprimentos sistemáticos de objectivos. As empresas de distribuição são um maná destas situações.
5 Victor H. Vroom, teoria da expectativa, 1964
O resultado da acção de cada indivíduo em determinado contexto ou situação depende racionalmente da expectativa no resultado da sua acção e no grau de atractividade (para si) de tal resultado.5 Os cinco pilares em que assenta a teoria são os resultados, a valência, a instrumentalidade, a expectativa e a força. No seguimento do que havíamos dito sobre a ficção na contratação dos indivíduos, os resultados são um factor central e focam-se sobretudo sob a percepção individual mais do que sobre a realidade. No entanto convém que essa percepção corresponda tanto quanto possível à realidade pois essa “venda” de uma imagem irreal é muito facilmente percepcionada por um indivíduo com expectativas muito elevadas. Os resultados poderão ser de carácter material ou imaterial, positivos ou negativos. Exemplos de resultados positivos são os salários, os prémios de produtividade, as férias, a segurança no trabalho e do trabalho (o sentimento de insegurança tem-se provado altamente desmotivador), o relacionamento com os colegas e a estrutura global da organização, as oportunidades de realização e progressão de carreira (outro aspecto altamente ficcionado no dia-a-dia das organizações). Exemplos de resultados negativos são os diversos tipos de fatiga física ou psicológica, a frustração, os diversos tipos de ansiedade, os diversos tipos de ameaça ou as chefias autocráticas principalmente quando não se revelaram assim desde o primeiro momento ou quando existiram alterações nas chefias. Como valência entende-se o grau de atractividade ou o nível de intensidade que a obtenção de determinado resultado representa para o indivíduo. O esforço dispendido será diferente consoante o grau de atractividade. Esta também pode ser positiva, negativa ou neutra. Por sua vez o aspecto mais interessante de analisar será o da instrumentalidade que associa o grau percebido de desempenho com o resultado propriamente dito. A expectativa é precisamente o que se espera tendo como ponto de partida o comportamento actual. Se um indivíduo se empenha para além do que é de si esperado, se ocupa mais tempo do que lhe é exigido, se procura soluções para além do que são as suas incumbências, é natural que tenha uma expectativa bastante elevada em contraponto com as alternativas. Relaciona-se aqui o esforço do indivíduo com o seu desempenho. O que não significa necessariamente um reconhecimento do mesmo por terceiros. Isto prende-se exclusivamente com a própria percepção do indivíduo. Finalmente, a força corresponde à quantidade de esforço no interior da pessoa capaz de a motivar. A instrumentalidade foi focada em especial porque existem exemplos clássicos de organizações que apenas premeiam experiência e antiguidade em vez de desempenho. Esta não é propriamente uma questão politicamente correcta. O factor antiguidade e experiência são fundamentais para as organizações e devem ser reconhecidos. Eles simbolizam precisamente tudo o que se tem vindo a perder no contexto organizacional dos nossos dias principalmente no sector privado. Um dos motivos para o baixo índice de produtividade é justamente a elevadíssima rotatividade no sector privado. Já no sector público o problema é diferente e tem vindo a mudar positivamente mas muito lentamente ao longo dos anos desde 1975. Prende-se com o conceito de serviço, e com a despersonalização do Estado. Tal como deve existir um forte sentimento de pertença numa empresa privada para que exista a tal maximização do esforço e consequentemente do desempenho, o mesmo tem de existir no sector público. O “patrão” é consubstanciado na própria sociedade e, em última análise, no próprio indivíduo. O desperdício que foi durante muitos anos apanágio do sector público (com algumas honrosas excepções) traduziu-se num descrédito enorme dos serviços públicos. Como organizações falharam a todos os níveis em criar toda a estrutura para que sucedam todos s processos que descrevemos atrás. Os indivíduos não tinham (e muitos continuam a não ter) a percepção que o desperdício público é uma perda pessoal pois o Estado é o conjunto de todos os cidadãos. Numa sociedade regida pela ética desde o berço, passando pelos bancos das escolas, o serviço público deveria ser por si um factor diferenciador positivo dos indivíduos e por consequência motivador. Mas infelizmente os piores exemplos na administração pública começam precisamente no topo, na política subjugada a valores mais altos que se têm vindo a levantar. Voltemos à experiência, tendo como foco as organizações diversas não públicas. Como dizíamos, esta é um factor fulcral, uma espécie de ancora e ao mesmo tempo um factor de perspectiva para cada um dos indivíduos independentemente de há quanto tempo estão integrados ou se estão a acabar de chegar. O erro não está na valorização da antiguidade mas sim na valorização acrítica e independente de desempenho. Aos indivíduos valorizados por antiguidade tem de ser exigido o factor desempenho mas também o factor coesão e transmissão de valores. Deveria caber-lhes um papel vital de educação para a cultura da organização e outro mais importante ainda, o de exemplo. Talvez num mundo perfeito assim pudesse suceder e é uma realidade que não vivemos num mundo perfeito. Mas o ser humano é racional e como tal pode criar objectivos e expectativas que ultrapassem o limite da realidade palpável. Não são as expectativas de que falávamos antes no contexto organizacional mas antes as expectativas enquanto ser humano vincadamente social. O indivíduo em contexto das organizações apenas pode maximizar o seu desempenho se existir um equilíbrio entre o físico e respectivas necessidades, o mental e respectivas formas de preservação e estimulação do factor saúde e coisas tão elementares como a criatividade, o génio, ou o talento inato e o social na saudável (tanto quanto possível numa sociedade mutilada de valores e princípios) convivência com os outros indivíduos. Não é por acaso que os indivíduos se tendem a organizar. Existem centenas de tipos de organizações, cada um deles com as suas características próprias mas que conferem ao indivíduo em particular espaços de participação. Seja o clube recreativo ou desportivo, a ONG onde se pratica voluntariado, a associação dos bombeiros voluntários, os escuteiros, as associações cívicas, de utentes de serviços, de consumidores, os sindicatos, os partidos políticos, as associações de estudantes. Uma lista enorme não contendo os tipos de organização informal, como as bandas de música ou os grupos de amigos.
Também importante, e por vir complementar a ideia sobre o tema é a Teoria da equidade6 que foca a comparação do esforço de um indivíduo com o esforço de outros indivíduos que sejam relevantes. Trata-se simplesmente de um rácio entre inputs (o que dá) e outputs (o que recebe). Ou seja, o indivíduo compara-se com outros indivíduos. Aqui se reflecte a tal necessidade de igualdade.
Os factores comparativos são objectivos para o indivíduo. Ou seja, o que ele compara a nível de inputs são factores concretos como nível de escolaridade, inteligência (percepcionada), experiência, antiguidade, esforço, dedicação, absentismo, etc. A nível de outputs são os pagamentos, prémios, benefícios, condições de trabalho, privilégios, etc.
Tal como já foi dito acima, esta teoria confirma a ideia que os sentimentos de iniquidade ou desigualdade não só são geradores de tensão como são desmotivadores, pelo que é resultado óbvio um decréscimo produtivo. E a iniquidade pode apresentar-se de várias formas, positivas (o indivíduo é valorizado face a outros com os quais se compara) ou negativas (o indivíduo é desvalorizado face aos outros com os quais se compara). Quer um quer outro são factores desmotivadores pois essa iniquidade apresenta-se como uma multiplicidade de critérios que podem hoje ser positivos e amanhã tornar-se negativos para o indivíduo em questão. A verificação prática desta teoria dá-se naturalmente muito mais nos casos de iniquidade por defeito. Embora se centre mais na questão retributiva também se pode aplicar a coisas mais intangíveis como o estatuto e o consequente reconhecimento com distribuição de espaços.
Para complementar é importante que também se tenha em consideração a forma como se reforçam os comportamentos e consequentemente os desempenhos do indivíduo numa organização7. Tendo em conta que todos os factores descritos anteriormente para a maximização do esforço e, em resultado disto, do desempenho o reforço representa mais uma variável na motivação uma vez que esta é também consequência do encorajamento de comportamentos apropriados e desencorajamento de comportamentos inapropriados. O reforço – à maneira clássica da psicologia – deve assim ser aplicado como mais um elemento na busca incessante de motivação, e deve ser apresentado com regularidade ou com excepcionalidade temporal, mas sempre com a intenção de que o indivíduo tenha a total percepção que um comportamento apropriado está a ser premiado e um comportamento inapropriado está a ser desencorajado, e eventualmente punido. Muitas vezes uma não recompensa já representa uma severa punição. Tudo depende do factor comparação. Quando se fala em reforço é quase exclusivamente relacionado com questões de ordem remuneratória muito embora, também aqui, existam outras questões que podem muito bem servir de reforço no sentido mais amplo. Um reconhecimento, mesmo que hipócrita, desde que percepcionado da forma esperada, torna-se por si mesmo um reforço não material.


Conclusão



Podemos concluir de uma forma muito breve que as sociedades e as suas organizações devem passar a distinguir entre o individualismo, e a igualdade tendo como factor diferenciador a individualidade. O individualismo já provou ser um erro estratégico dado o carácter social do indivíduo, no entanto é aquele que mais se aproxima da natureza humana. Mas se o Homem é um ser social deve a sociedade e devem as múltiplas estruturas sociais por si criadas, aproveitar ao máximo aptidões e talentos dos indivíduos. Isso faz-se quando, num primeiro plano se escolhem as pessoas certas para os lugares correctos num contexto de total igualdade de oportunidades. Num segundo plano quando a realidade apresentada ao indivíduo corresponde com a realidade efectiva, ou na impossibilidade de isto suceder (não vão as organizações ficarem desertas de valores humanos) corresponda tanto quanto possível à realidade apresentada. Num terceiro plano devem ser criadas todas as condições, na sociedade e nas organizações, para que o envolvimento pessoal se revista de um plano ético, fundamental para uma relação de verdade. A sua falha pode representar consequências graves para a organização e para a sociedade. Os comportamentos anti-sociais são normalmente consequência de um mau funcionamento da própria sociedade. Assim sucede nas organizações. Num quarto plano é fundamental ter em conta a fórmula do desempenho que integra a as aptidões e a motivação. Se as aptidões são mais inatas que adquiridas a motivação é mais resultado de factores adquiridos que inatos. Como vimos com a demonstração de algumas teorias que ficaram consagradas (embora não sejam muito aplicadas na prática na nossa realidade mais próxima), a motivação é algo que depende da relação entre expectativa e resultado, da equidade entre o esforço e o desempenho comparando com modelos auto sugeridos dentro da mesma estrutura organizacional, e o reforço que nos sugere que a um comportamento positivo reforçado tendemos a repetir mais esse comportamento.
Claro que a motivação é muito mais que uma função matemática. Nada na vida se resume a funções matemáticas excepto as próprias funções matemáticas. O ser humano é muito mais complexo do que parecia ser quando os primeiros filósofos começaram a querer inventar psicologia. Nos nossos dias a psicologia continua a ser inventada e reinventada a cada minuto e o enorme progresso que se tem feito sentir a nível da produção intelectual nas ciências sociais, apenas carece que aplicação prática num mundo em que a esmagadora maioria das organizações são o reflexo de altos défices de conhecimento e de ética. Pese o facto de cada vez mais se falar nestas questões é uma realidade indesmentível que não existe uma preocupação efectiva nas organizações – sobretudo as empresariais – com factores como a experiência, o aproveitamento maximizado das aptidões ou a motivação contínua dos seus quadros através de todas as ferramentas aqui faladas e de outras. A ânsia de maior produtividade com menor factor humano, ou seja, a desumanização dos factores de produção com vista ao maior lucro, poderão ter um resultado catastrófico. Uma sociedade desmotivada e deprimida não será capaz de manter organizações estáveis, credíveis e viáveis. A começar e a terminar na própria sociedade, no próprio Estado.
 
 
 

1 Nota do autor baseada na leitura da obra traduzida em português do Brasil

2 Marx & Engels: Basic Writings on Politics and Philosophy, Anchor Books, New York, 1959, p.119

3 Ferreira, J. M. Carvalho; Neves, José; Caetano, António; Manual de Psicossociologia das Organizações; McGraw Hill, p257

4 José Ortega y Gasset

5 Victor H. Vroom, teoria da expectativa, 1964

6 J. Stacy Adams, Teoria da Equidade, 1965

7 Burrhus Frederic Skinner. Teoria do reforço.

 
Actualizado em ( 13-Abr-2010 )
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